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  • Ricardo Fotios

A música e sua missão de amplificar o léxico


Devia ter aproximadamente 8 anos de idade quando utilizei espontaneamente um dicionário pela primeira vez. Estava no início do ensino primário, nome dado aos quatro anos iniciais da educação formal no Brasil à época, equivalentes à metade do ensino fundamental de hoje. O motivo da curiosidade era a letra de uma música que eu cantava a plenos pulmões.

O samba “Disritmia”, do gênio Martinho da Vila, foi lançado anos antes no álbum “Canta Canta, Minha Gente” (RCA Victor, 1974) e fazia um enorme sucesso. Altamente popular no ritmo, a letra da música traz palavras nada convencionais, especialmente para um garoto em idade escolar. Portar um dicionário era obrigatório naquela fase de alfabetização, mas o uso do livrinho era quase sempre acadêmico, restrito à sala de aula.

Apesar de cantar a letra de cor, não entendia muito bem a história que era contada. O título já era um mistério, mas ainda havia as palavras “embrenhar”, “emaranhado”, “transfundir”, “exorcizado”, “infindo”, “retinas”, “hipnotizado” e “boemia”. A formação poética da canção era um convite ao descobrimento. E lá fui eu investigar o léxico, hábito que conservo até mesmo para termos cujos significados todos julgo conhecer.

Da minha memória juvenil, trago a impressão de que as composições da chamada MPB (Música Popular Brasileira) tinham exatamente esse propósito, o de entrelaçar e revelar vocábulos escondidos da Língua Portuguesa para ampliar o repertório dos ouvintes e buscar uma rima rara, como os versos “Pena de pavão de Krishna /

Maravilha vixe Maria mãe de Deus / Será que esses olhos são meus?”, que Caetano Veloso forjou em “Trilhos Urbanos” (1979), música que tive o privilégio de cantar no CD de estreia da banda Pacarana (1995).

A indústria cultural forçou a produção musical no estrito sentido do entretenimento, o que não é necessariamente ruim, mas acabou por privar ouvidos e mentes de ferramental imprescindível para uma comunicação plena em qualquer idade. E fez isso a partir de uma falsa alegação, segundo a qual a música popular precisa ser fácil, ser acessível. Sucesso até hoje, “Disritmia” prova o contrário.

Ao imitar a conversa de rua, o óbvio ululante, a pobreza poética das redes sociais, a canção popular deixa de acrescentar e redunda em efemeridade. Sai do estado sólido para o qual foi criada e se encontra em estado líquido como, aliás, tendem todas as coisas do nosso tempo, conforme sistematizou o sociólogo ZygmuntBauman (1925 – 2017).

Que as canções do futuro possam retomar seu lugar de provocação e reflexão. Que voltem a ser utilizadas nas salas de aula e que tragam em suas letras palavras desconhecidas e metáforas complexas, motivando jovens estudantes a buscar significados no Google. Que o samba, o axé, o rock e o que mais vier pela frente possam nos resgatar e nos ajudar a evoluir, mas que não vivam como as flores de plástico - que não morrem, como já alertaram os Titãs.

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Ricardo Fotios é jornalista, formado pela Universidade Metodista de São Paulo, tem mestrado em Produção Jornalística pela ESPM e em Administração pela Fundação Getúlio Vargas.

Autor do livro “Reportagem Orientada pelo Clique”, lançado pela Editora Appris, em 2018, Fotios atuou, também, na gestão de equipes editoriais e técnicas no portal UOL.Também é cantor e compositor - nos anos 1990, foi vocalista da banda Pacarana.Atualmente, é colunista do site da TV Cultura. Além da autoria desta matéria, Ricardo Fotios foi nosso convidado no episódio #08, juntamente com Tony Bellotto guitarrista da banda Titãs.


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